quarta-feira, 13 de março de 2013

Opinião: Hugo Chavez


Por Marcello Zalivi

Passado o furacão desde que uma das mais emblemáticas lideranças políticas da América latina bateu as botas, fui desafiado por um amigo a escrever sobre essa figura histórica e importante na configuração do atual mapa político.

Claro que o convite foi feito depois de conversas com amigos e debates em redes sociais, onde fui, como não poderia ser diferente, confrontado por muitas pessoas e seus pontos de vistas, que respeito e em alguns momentos concordo. Por outros fui acusado de desinformação, sofrendo criticas por me posicionar contrario as suas convicções, porem, me orgulho de ter adotado esta postura e fomentado o debate.

Não fui condicionado por minha falta de fé na política, assunto que causa em mim sentimentos antagônicos de amor e ódio, mas por minha curiosidade. Quando adolescentes sempre me identifiquei com o espírito revolucionário de grupos políticos e ícones de resistência histórica, defendendo de forma visceral suas atitudes e mantendo sobre os mesmos olhares complacentes sobre seus governos. O tempo passou, cresceu em mim uma curiosidade de aprofundar sobre estes importantes personagens e acontecimentos, e muitas vezes cai na armadilha de me deixar levar pela empatia que sinto pela esquerda, para embasar minhas opiniões, mesmo que elas tenham sido retiradas de meios de comunicações bolivarianas ou bolcheviques.

Depois de me aventurar em livros, revistas, blogs, documentários e escutar diversas opiniões, passei a me posicionar de forma mais neutra, sem tomar partido e considerando os dois lados da moeda. É importante conhecer do que se fala, e no meu caso não tenho a pretensão de me tornar um especialista, sou apenas mais um “expert” em assuntos aleatórios, como acontece com uma infinidade de pessoas na vasta floresta da internet.

É complicado discutir um personagem como Chavez, seu temperamento forte e explosivo, as forças de suas convicções, sua inegável habilidade de liderar, de ser temido e amado. Chavez dividiu opiniões não só na Venezuela, mas em todo mundo. E como em toda divisão, existem os meios de comunicações e suas respectivas artimanhas para fazer valer seus pontos de vista.

Chavez é como aquela pessoa que você conhece por terceiros. Você escuta histórias, casos, intrigas, aventuras do personagem. Seu julgamento inevitavelmente será “contaminado” por influencia das informações que você obteve. Você irá ler sobre Chavez em vários meios e achará estranho como uma figura pode desperta opiniões tão controversas. Ele será tirano para uns, um líder para outros. Na verdade ele é um personagem contado de formas diferentes, é como aquela fofoca de bairro, você ouve falar bem e mal de uma pessoa pelos vizinhos mexeriqueiros, o que muda guardada as devidas proporções, alem da complexidade dos fatos e de seus personagens, são os vizinhos personificados como os meios de comunicações diferentes. Ex: O vizinho da direita seria a Veja, o da esquerda seria a Carta Capital (a grosso modo).

A trajetória de chaves é muito interessante. Ele se tornou de forma natural uma liderança dentro do exercito Venezuelano. O seus discursos inflamados continham o que existe de mais irresistível entre as massas e intelectuais de esquerda. Críticas ferozes ao neoliberalismo, com foco principal na política externa Yankee e o combate à pobreza ligado aos fundamentos do socialismo, ou melhor, socialismo bolivariano.

Por conta da força que ganhava com o poder de suas palavras Bolivarianistas e o apoio que recebia de populares e membros das forças armadas, era natural que não fosse bem visto pelo governo venezuelano e por uma forte e descontete ala do exercito.  Sofrendo retaliações por todos os lados, Chavez fundou o Movimento Quinta República e tentou capitanear um golpe de estado contra o governo de Carlos Andrés Pérez, em 1992. O atentado foi mal sucedido, mas proporcionou a Chavez apoio de muitos populares, fazendo com que o mesmo, fosse alçado a presidência da república em 1998 gozando dos direitos oferecidos pela democracia, ou seja, escolhido pelo povo através de eleições diretas. 

Durante seus primeiros anos de governos, suas políticas de inclusão social e transferência de renda obteveram enorme popularidade. Promoveu internacionalmente o antiamericanismo e o anticapitalismo, apoiou a autossuficiência econômica e defendeu a cooperação entre as nações pobres do mundo, especialmente na América Latina.

Entretanto sua política externa foi altamente criticada até mesmo por partidários. Chavez se intrometeu em assuntos delicados na esfera global, como seu apoio ao Irã e Kadafi, sua intervenção em assuntos políticos na conturbada relação Colômbia/As Farc (Gerando uma crise política em 2008) e no apoio político e financeiro (patrocinado pelos petrodólares) aos países latinos, destaque para Cuba, Bolívia e Equador; é claro que estes posicionamentos causaram a ira e perseguição dos EUA e seus aliados em todos os campos para difamar a imagem de Chavez pelo mundo. Como aconteceria em qualquer governo, a oposição chiou juntamente com parte da população, descontentes com os rumos adotados pela política Chavista. Mesmo com os significativos avanços na área da pobreza e desenvolvimento humano, uma grande parcela de populares, em uma onda que quase dividiu a Venezuela, cobraram mais esforços e investimentos do governo dentro do próprio país, criticando abertamente o patrocínio das nações amigas. A insatisfação cresceu e com isso vieram algumas das mais polêmicas ações do governo.

Uma das medidas mais criticadas do seu governo é relacionada ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). Chavez fundiu vários partidos de esquerda na tentativa de centralizar o poder, exercer mais controle do parlamento, e extinguiu o Senado. Neste período foram nomeados vários aliados para o Supremo Tribunal de Justiça, alem do controle absoluto da economia através do Banco Central e da estatal petrolífera PDVSA (afinal o petróleo corresponde a mais de 90% das exportações).

No território da comunicação, várias emissoras de rádio e TV perderam suas concessões por se opor a política de Chavez. O programa “Alo Presidente” era obrigatório e tinha no presidente sua figura principal. Ele está no ar há 13 anos e Chavez chegou a fazer programas de até 5 horas duração, ocupando os principais horários destes meios de comunicações.

Logicamente essas ações culminaram na revolta da oposição e de parte da população que foram as ruas. O que foi percebido pelos confrontos nas principais cidades do país entre grupos Pro Chaves e opositores do governo. Ironia ou não, em 2002 ele acusou que estava sendo vitima de um golpe de estado por setores do exército e antigos apoiadores, entre eles Luis Miquilena, um dos fundadores do partido. Uma pratica que ele mesmo tentou realizar quando há quase 10 anos atrás. 

Certo ou não, Chavez retribuiu o fogo com mais fogo. Greves que chegaram a durar 9 semanas e o descontentamento de parte da população refletiram naquele que deveria ser o termômetro da democracia, as eleições. Chavez foi reeleito com facilidade 4 vezes consecutivas, mas as duas últimas de forma bastante controvérsia. Na eleição de 2006 a oposição boicotou o pleito como forma de protesto. Já em 2012 foram apontadas quase 500 supostas irregularidades" cometidas por militares responsáveis pela segurança dos locais de votação. Foram pedidas mais rigor nas investigações e que um processo fosse instaurado para analisar as eleições presidenciais, mas nenhuma delas foram adiante, confirmado mais uma vez a força de Chavez.

Entretanto, a diminuição da pobreza, avanços ao reconhecimento de direitos culturais e linguísticos das comunidades indígenas, aumento da renda entre as classes C, D e E, esta última chegou a atingir um aumento de até 32%, somadas a diminuição da miséria, foram fundamentais para apoiar Hugo Chavez e torna-lo um líder político ainda mais carismático.

Mas nem tudo são flores, em 2007 Hugo Chavez que havia sido eleito no ano anterior foi derrotado em um plebiscito sobre a reforma da constituição, que contou com a abstenção de 44,9% da população.  Porem, mesmo aceitando abertamente a derrota, a Assembleia Nacional venezuelana propôs formalmente em 9 de dezembro de 2008 a realização de uma emenda à Constituição Nacional para permitir a reeleição presidencial indefinida do presidente, tal como este tinha pedido. A formalização da proposta foi transmitida em simultâneo e obrigatoriamente pelas rádios e televisões do país. 

Os prós e contras do Governo Chaves podem ser analisados por diversos documentários. Entre eles destacam-se: “A Revolução não será televisionada” (“The Revolution Will Not Be Televised” ou também “Chávez: Inside the Coup”). Um filme que trata a tentativa de golpe sofrida pelo mesmo em 2002. O documentário foi amplamente divulgado e recebeu prêmios internacionais e o apoio de personalidades mundiais como Sean Penn.

Na contra mão está o igualmente celebrado  “X-ray of a Lie” (“Radiografia de uma mentira”, 2004). Este filme acusa o documentário dos diretores Kim Bartley e Donnacha O'Briain de ser uma peça publicitária promovida e patrocinada pelo próprio Hugo Chávez. Acusando de recorrerem a distorções e manipulação de imagens para forjar, e depois denunciar a tal “tentativa de golpe” de 2002. X-ray of a Lie denúncia o presidente utilizando de suas próprias palavras, onde Chavez afirma a necessidade de gerar “crises” para delas sair fortalecido. 

Outro fator que chama atenção sobre Hugo Chaves é seu fascínio na figura imponente de Simon Bolívar, considerado na América Latina como um herói, visionário, revolucionário e libertador. Mas, estudos sobre a vida deste ilustre personagem desmistifica parte desses adjetivos. Lendo a respeito, deparei com um de seus grandes críticos, outro ídolo chavista, Karl Marx. Um dos pais do socialismo fez uma pesquisa extensa sobre a figura de Bolívar e teve acesso a informações privilegiadas sobre o mesmo. Marx definia Bolívar como "personagem medíocre e grotesco" alem de covarde, mentiroso entre outros. Já nessa época Marx com a ajuda de Engels vislumbravam a tendência latina americana de cultuar heróis perversos e culpar outros países por problemas internos. 

Não há como negar que a liderança e os discursos Chavez eram alem de atrativos, eram algumas vezes extrovertidos e muitas vezes polêmicos. Talvez por isso, até mesmo na morte, o ex-presidente ainda gera debates acalorados. Foi divulgado que ele será embalsamado. Isso acaba por derrubar, meio que indiretamente, a tese que Chavez teria morrido em solo Venezuelano. Hugo Chavez provavelmente morreu em Cuba e o processo de embalsamamento, que não é simples, já foi realizado. É preciso ser feito nas primeiras 12 horas após a morte da pessoa, do contrário, o corpo já começaria a se deteriorar rapidamente inviabilizando o procedimento.

Entre prós e contras sobre o governo Chavez, o melhor é não aceitar verdades prontas e procurar informações de todos os lados, filtra-las ao ponto de se conseguir fazer o julgamento mais justo, ou simplesmente mais próximo do realidade. É claro que nossas empatias e conceitos pré-estabelecidos serão preponderantes para influenciar nossas opiniões sobre o tema. De qualquer forma, inteirar-se do assunto são recursos para fazer aquilo que mais gosto de fazer na Internet. Colocar lenha na fogueira e mijar gasolina por cima. 

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